A autonomia, na perspectiva da AT, engloba a capacidade de viver de forma espontânea, consciente e íntima (BERNE, 1964). Em essência, essas três dimensões – espontaneidade, consciência e intimidade – sinalizam uma libertação progressiva dos roteiros (scripts) e dos jogos psicológicos, gerando relacionamentos mais transparentes e escolhas mais autênticas.
Para sair de padrões automáticos, o primeiro passo é tornar-se consciente de que existiram – e ainda existem – fatores condicionantes que foram incorporados na infância (mensagens parentais, mandatos do tipo “não seja”, “não sinta”, “não cresça”). Esse reconhecimento abre espaço ao questionamento: “Qual parte dessas diretrizes ainda faz sentido hoje?” (BERNE, 1972).
A limpeza ou “descontaminação” do Adulto ocorre à medida que o indivíduo percebe pensamentos e sentimentos que não são condizentes com a realidade atual, mas sim resíduos do Pai ou da Criança contaminando a avaliação lógica. Assim, o Adulto aprende a lidar com dados presentes de forma mais acurada, sem a interferência de crenças distorcidas ou reações infantis (BERNE, 1961).
Inspirada na abordagem de Re-decisão (GOULDING; GOULDING, 1979), a pessoa pode revisitar aquelas escolhas feitas quando criança, que moldavam scripts aprisionantes. Ao revisá-las com o Adulto fortalecido, torna-se possível instaurar novas diretrizes internas, aderentes ao presente e às possibilidades reais.
Um dos sinais de autonomia é a capacidade de transitar pelos Estados do Ego de forma consciente e adaptada à situação. Por exemplo, ser afetuoso (Criança Natural) quando convém demonstrar afeto, mas recorrer ao Adulto para solucionar problemas complexos ou assumir o Pai Nutritivo se alguém precisa de um limite claro ou cuidado (BERNE, 1964).
Quando se está livre de roteiros estagnados, o indivíduo se sente mais à vontade para experimentar novas formas de vivência. Isso inclui arriscar-se em projetos fora de sua zona de conforto, dialogar com pessoas diferentes e expressar opiniões pessoais mesmo que destoem das expectativas do grupo.
A autonomia traz a noção de que cada um é responsável pelas escolhas que faz e pelos rumos que decide tomar. Deixa de lado a postura de vítima ou perseguidor, tomando as rédeas da própria narrativa. No trabalho, por exemplo, o sujeito assume decisões com assertividade e lida com as consequências sem repassar culpas (BERNE, 1972).
A autonomia implica ruptura com padrões antigos. Logo, a pessoa pode sentir medo ou culpa ao abandonar mandatos parentais e roteiros familiares. A mudança para a "autorregulação" demanda coragem para encarar a solidão inicial de se autocuidar.
Em algumas culturas ou empresas, a espontaneidade e a intimidade não são bem vistas. A autonomia pode enfrentar resistência externa, forçando o sujeito a balancear seu desejo de autenticidade com a prudência de avançar no ritmo apropriado ao ambiente.
É essencial diferenciar autonomia de individualismo exacerbado. O indivíduo autônomo mantém a empatia, a escuta e a cooperação. Ele não age isolado dos laços sociais, mas decide como deseja se integrar a eles de modo consciente e não refém de pressões inconscientes (BERNE, 1964).
O trabalho em grupo permite que cada participante observe seus jogos psicológicos e scripts, recebendo feedbacks que desencadeiam a tomada de consciência e a coragem de arriscar-se na espontaneidade (BERNE, 1961).
Diários emocionais, práticas de mindful awareness ou de observação ativa ajudam a captar as nuances de pensamento e sentimento e a distinguir as vozes do Pai Crítico, da Criança Carente e do Adulto objetivo.
Profissionais, amigos e familiares oferecem suporte para a consolidação do Eu autônomo. Reconhecer as vitórias e encorajar o exercício da intimidade auxiliam a sedimentar novas formas de relacionamento ou de expressão pessoal.
Por não depender mais de disfarces e jogos, a pessoa autônoma reduz mal-entendidos e atritos. A intimidade genuína se instala com base na honestidade mútua, permitindo trocas afetivas mais ricas.
Quem vive fora de mandatos rígidos costuma ter maleabilidade mental. Soluções inovadoras surgem, pois o Adulto atua sem as contaminações do passado, abrindo espaço para estratégias resolutivas em vez de reações defensivas.
O sujeito autônomo experimenta a satisfação de ter escolhido conscientemente suas rotas de carreira, de relacionamento e de vida cotidiana. Esse senso de “autoria” traz significado e autoeficácia (BERNE, 1972).
A autonomia, na perspectiva da Análise Transacional, é fruto de um processo profundo de revisão dos Estados do Ego e das mensagens recebidas na infância. Ela não se confunde com irresponsabilidade ou rebeldia, mas sim com a liberdade de dizer "sim" ou "não" às vozes internas e externas, de modo centrado e congruente.
Ao fortalecer o Adulto, reconhecer as necessidades da Criança e avaliar criticamente as vozes parentais (Pai), o indivíduo encontra maior serenidade em suas escolhas e constrói relacionamentos baseados na verdade e na cumplicidade. É um caminho de consciência progressiva, em que cada passo de autodescoberta libera um novo nível de criatividade e conexão consigo mesmo e com o mundo.