No contexto da Análise Transacional, Eric Berne dedicou atenção especial ao modo como os seres humanos estruturam o tempo para satisfazer suas necessidades de reconhecimento, segurança e interação. Esse fenômeno é conhecido como "Estruturação Social do Tempo" e reflete diversas maneiras pelas quais as pessoas organizam o próprio dia e se relacionam, tanto consigo mesmas quanto com outras pessoas (BERNE, 1964). Neste capítulo, apresentamos as seis formas clássicas de estruturação do tempo descritas pela teoria e analizamos como elas se manifestam nos ambientes social, clínico e organizacional.
A Estruturação do Tempo enfoca os padrões de comportamento e comunicação que as pessoas adotam para lidar com as carências de estímulos, de transações e de envolvimento emocional. Para a Análise Transacional, todos os indivíduos buscam, em maior ou menor grau, algum tipo de reconhecimento (carícias). Se esse reconhecimento não surge espontaneamente, a pessoa adota formas de organizar o tempo que garantam alguma interação, seja positiva ou negativa (BERNE, 1961).
As formas clássicas de estruturação estão organizadas em uma sequência que vai do menor nível de envolvimento relacional até o mais profundo. São elas: Retraimento, Rituais, Passatempos, Atividade, Jogos e Intimidade.
No setting terapêutico, a compreensão dessas formas de estruturação do tempo é essencial para identificar como os pacientes buscam (ou evitam) relações e carícias. Reconhecer o padrão predominante ilumina defesas e resistências. Por exemplo, um paciente que se mantém em Retraimento pode ter medo de julgamento, enquanto outro que só se engaja em Passatempos pode temer a profundidade da Intimidade (BERNE, 1961).
Professores e líderes podem perceber quando uma sala de aula ou equipe se limita a Rituais e Passatempos e pouco avança na construção de relacionamentos sólidos e colaborativos. Promover atividades conjuntas e debates mais significativos estimula a passagem para níveis de Atividade e Intimidade construtiva. Evita-se também que Jogos dominem o ambiente, reduzindo a eficácia dos processos de ensino ou produtividade (BERNE, 1964).
Muitos conflitos surgem quando uma das partes busca Intimidade, enquanto a outra prefere a superficialidade dos Passatempos, gerando frustrações e mal-entendidos. A análise dessas discrepâncias no modo de estruturar o tempo previne jogos de poder e ressentimentos silenciosos.
A Estruturação Social do Tempo não implica que apenas a Intimidade seja desejável e que todo o resto seja descartável. Cada forma tem sua função. Muitas vezes, adota-se o Retraimento ou Rituais como mecanismos de proteção momentânea.
O fundamental é estar ciente do valor e dos riscos de cada modalidade, buscando alinhar a escolha da forma de interação às reais necessidades emocionais e contextuais (BERNE, 1972).
Compreender como estruturamos o tempo socialmente, no âmbito da Análise Transacional, possibilita reconhecer padrões de relacionamento e transações cotidianas. Isso, por sua vez, favorece a escolha consciente de caminhos mais satisfatórios e autênticos, seja em ambientes terapêuticos, educacionais ou organizacionais.
Quando há clareza sobre os estágios — de Retraimento até Intimidade —, fica mais fácil avaliar onde se está e em que direção se deseja seguir no processo de interação com as outras pessoas.