Disfarces dificultam vínculos e escondem emoções na comunicação interpessoal

Identificar disfarces ajuda a construir relações mais transparentes e conscientes.

O que você pode aprender

  1. Disfarces dificultam a comunicação autêntica, criando desconfiança e distanciamento.
  2. Reconhecer Estados do Ego e intenções reais facilita relacionamentos sinceros e produtivos.
  3. A conscientização e descontaminação do Adulto auxiliam na comunicação livre de disfarces.
  4. Ambientes que valorizam feedback aberto estimulam pessoas a abandonar mascaramentos e scripts automáticos, fortalecendo vínculos verdadeiros.

Dentro da Análise Transacional (AT), “disfarces” (ou mascaramentos) se referem a formas de expressão em que o indivíduo não revela, abertamente, seus Estados do Ego ou suas intenções subjacentes. Trata-se de manifestações que confundem a leitura direta das mensagens, ocultando aspectos emocionais ou motivações internas (BERNE, 1961). Neste capítulo, exploramos a natureza dos disfarces, sua relação com os Estados do Ego, as consequências desses mascaramentos nos relacionamentos e como o trabalho terapêutico ou educacional pode ajudar a desmontar essas barreiras na comunicação.

Definição de disfarces

Segundo os princípios da AT, cada pessoa tende a buscar reconhecimento (carícias) e proteção diante de riscos emocionais. Com frequência, porém, o medo de rejeição ou a necessidade de manter o status social leva o sujeito a “encobrir” seus verdadeiros conteúdos, assumindo posturas ou discursos que não correspondem ao que realmente sente.

Um disfarce, então, é uma espécie de “maquiagem” emocional ou relacional que oculta o Estado do Ego efetivo (Pai, Adulto ou Criança) ou que adiciona intenções implícitas a uma comunicação aparentemente sincera (BERNE, 1964).

Por que as pessoas se disfarçam?

O uso constante de disfarces pode ter múltiplas motivações:

Proteção

Muitas vezes, a Criança interna teme julgamento ou abandono. Para evitar ferimentos emocionais, a pessoa recorre ao Pai Crítico ou ao Adulto Distante, por exemplo, parecendo invulnerável ou autoritária.

Manutenção de papéis sociais

Um indivíduo que assume funções de liderança pode tentar “calar” a Criança espontânea dentro de si, disfarçando-se constantemente de um Pai excessivamente protetor ou autoritário. Assim, procura corresponder à imagem que julga necessária à sua posição hierárquica (BERNE, 1961).

Jogos e roteiros

Os jogos psicológicos, típicos da Análise Transacional, envolvem frequentemente disfarces. As pessoas usam mensagens duplas ou subtexto para manipular reações alheias, confirmando roteiros de vida (scripts) ou anseios inconscientes (BERNE, 1972).

Formas comuns de disfarce

Mensagem ulterior

É uma das mais comuns: a pessoa diz algo no nível “oficial” (estado Adulto), mas há uma intenção ou emoção oculta (Pai, Criança) que não se explicita. Resulta em transações duplas, típicas de jogos.

Contaminação

Quando o Pai ou a Criança “invade” o Adulto, pode ocorrer um disfarce: o indivíduo acredita estar agindo racionalmente, mas em realidade está filtrando dados do presente por crenças inflexíveis ou emoções infantis. Esse mascaramento cognitivo e emocional impede a avaliação realista do momento (BERNE, 1961).

Posturas defensivas

Tanto no trabalho quanto nos relacionamentos pessoais, há quem mantenha o “sorriso falso” ou uma “aparente calma” como fachada para raiva, tristeza ou insegurança. Esse tipo de disfarce dificulta a construção de vínculos autênticos.

Consequências relacionais dos disfarces

  • Desconfiança recíproca: Quando as pessoas percebem que algo não “bate” no discurso de outro, tendem a responder com reservas, ampliando a barreira relacional.
  • Perpetuação de scripts negativos: Ao atuar com disfarces, confirma-se a crença de que “não se pode ser verdadeiramente aceito”, alimentando dinâmicas crônicas de vitimização ou de controle excessivo.
  • Carências de intimidade: A intimidade, entendida como negociação honesta entre Estados do Ego autênticos, fica prejudicada. Em vez de contato genuíno Adulto-Adulto, há mensagens repletas de subtextos.

Estratégias terapêuticas para lidar com disfarces

Identificação e nomeação

O primeiro passo é reconhecer a ocorrência do disfarce. O terapeuta ou educador pode questionar discretamente: "Há algo que você não está dizendo abertamente?" ou "Essa afirmação corresponde, de fato, ao que você sente?". Ao nomear a inconsistência, a pessoa tem a oportunidade de refletir e recalibrar sua comunicação (BERNE, 1972).

Descontaminação do adulto

É fundamental fortalecer o Adulto para que ele possa distinguir o que vem do Pai crítico ou dogmático e o que pertence à Criança emocional. A clarificação dessas fronteiras, chamada de descontaminação, reduz a necessidade de disfarces para manter a coerência interna.

Terapia de grupo ou supervisão

Em grupos de Análise Transacional, os integrantes ajudam-se mutuamente a reconhecer “indícios” de disfarce. Isso cria ambiente seguro para experimentações comunicativas mais francas e menos mascaradas, ampliando o autoconhecimento (BERNE, 1961).

Oferta controlada de carícias

Muitas vezes, a pessoa recorre a disfarces por acreditar que não receberá aprovação ou cuidado se demonstrar seus verdadeiros sentimentos. Ao oferecer feedback construtivo (carícia positiva específica) e reforçar comportamentos de autenticidade, o terapeuta ou líder encoraja a diminuição das máscaras.

Aplicações em ambientes organizacionais e sociais

O fenômeno dos disfarces não se limita ao campo clínico. Em empresas, por exemplo, colaboradores podem fingir concordância em reuniões para evitar conflitos, enquanto alimentam ressentimento por não sentirem espaço para divergências Adultas. O gestor que reconhece esse comportamento e acolhe ideias conflitantes de modo construtivo promove relações mais transparentes.

Aprendendo a reconhecer e renegociar

  • Autopercepção: Pergunte-se: “Estou sendo coerente entre fala, gesto e o que intuo internamente?”.
  • Escolher arriscar-se na intimidade: Para sair do disfarce, o indivíduo deve ousar expor sentimentos reais com interlocutores confiáveis, criando pontes de maior profundidade relacional.
  • Feedback recíproco: Nos grupos de convivência ou equipes de trabalho, cultivar feedbacks frequentes e abertos ajuda a desmontar máscaras que se formam por hábito ou insegurança.
  • Reeducação emocional: Estudar e praticar técnicas de autogestão, relaxamento e expressão de sentimentos que permitam a Criança interna sentir-se “vista” e o Adulto navegar sem tanta interferência do Pai crítico.

Considerações finais

A Análise dos Disfarces discorre sobre as sutis (e muitas vezes inconscientes) estratégias que as pessoas desenvolvem para resguardar certos aspectos de si ou para manipular cenários a favor de suas crenças e roteiros. Ao identificá-los, ganha-se a oportunidade de quebrar o ciclo de Comunicação Dupla e Jogos Psicológicos (BERNE, 1964).

O processo de conscientização passa pela fortificação do Adulto, pelo acolhimento das necessidades genuínas da Criança e pela reavaliação das vozes parentais (Pai). Assim, a vulnerabilidade pode se transformar em garantia de interações autênticas e saudáveis, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional.

Bloco VII
Parece que este bloco é de um único conteúdo.