Na Análise Transacional (AT), o termo "jogo" não se refere a atividades recreativas, mas sim a padrões de relacionamento repetitivos que trazem ganhos emocionais previsíveis, embora frequentemente negativos (BERNE, 1964). Jogos são sequências recorrentes de transações, geralmente compostas por mensagens “ulteriores” ou manipulativas, que terminam confirmando crenças arraigadas sobre si mesmo e sobre o outro. Aqui, exploramos o conceito de jogo, suas características típicas, as motivações por trás de sua repetição e as ações terapêuticas para desarmá-los.
Um jogo pode ser definido como uma “série estereotipada de transações, frequentemente repetidas, que ocorrem de forma oculta ou ambígua, resultando em um desfecho que traz um ganho psicológico para os participantes” (BERNE, 1964). Esse “ganho” pode assumir a forma de carícias negativas ou de sentimentos de vitória, superioridade, autopiedade, etc.
Os jogos caracterizam-se por transações duplas (isto é, uma aparente na superfície e outra implícita), que dificultam a compreensão do que, de fato, está acontecendo. Em geral, os envolvidos não estão plenamente conscientes da verdadeira motivação.
Eric Berne, em Games People Play (1964), apontou uma estrutura típica para quase todos os jogos psicológicos:
Berne (1964) propõe diversas classificações, sugerindo conjuntos típicos conforme ambiente ou contexto.
Envolvem padrões que atravessam a história pessoal de alguém, confirmando roteiros de fracasso, vitimização ou necessidade de “salvar” os outros. São perpetuados ao longo dos anos e se manifestam em várias relações.
Ocorrem nas relações de casal, podendo envolver chantagens emocionais, demandas indiretas ou culpabilização recíproca. Têm grande impacto na intimidade e frequentemente contam com intervenções familiares ou terapêuticas para interrupção.
Em ambientes profissionais podem surgir “Jogos de Poder”, nos quais subordinados se colocam em posição de dependência para depois acusar chefes, ou líderes que manipulam equipes, reforçando a posição de autoritarismo.
Ficar atento ao desconforto que surge quando “há algo a mais” sendo dito além do óbvio. Perguntar-se: “Qual a segunda intenção aqui?”. A observação do tom de voz, do subtexto e da coerência entre fala e expressão facial ajuda a detectar sinais de jogo.
Trazer conteúdos implícitos ao nível Adulto, perguntando diretamente o que a pessoa precisa ou o que realmente está querendo dizer. Frequentemente, a simples exposição da mensagem “oculta” neutraliza a continuidade do jogo.
Ao recusar papéis pré-ajustados de vítima, salvador ou perseguidor, evita-se a perpetuação de jogos. Por exemplo, em “Veja o que você me fez fazer”, a melhor resposta é: “Entendo que está chateado, mas cada um é responsável por suas escolhas. Quer conversar de outro modo?”.
O ideal é que as pessoas aprendam a responder de modo congruente, mantendo o Adulto firme e não cedendo às iscas ou chantagens emocionais. Isso requer treino, autopercepção e, muitas vezes, o apoio de intervenções terapêuticas (BERNE, 1972).
Em consultórios ou grupos terapêuticos, a análise de jogos propicia ao paciente a consciência de suas motivações ocultas e crenças disfuncionais. Ao trazer à tona a “vantagem” (ou carícia) buscada no jogo, abre-se espaço para estratégias mais saudáveis de obter reconhecimento e afeto.
Em equipes, jogos podem corroer a confiança e gerar climas pesados. A identificação coletiva dos padrões de culpabilização, manipulação ou vitimização incentiva uma comunicação mais transparente, onde se privilegia o estado Adulto na resolução de conflitos.
Quando líderes reconhecem seus próprios jogos ou os de seus subordinados, podem adotar táticas de feedback direto, minimizar o subtexto e redirecionar a conversa para objetivos claros de trabalho.