No âmbito da Análise Transacional (AT), o conceito de “script” (ou “argumento de vida”) descreve o roteiro inconsciente que cada indivíduo segue ao longo da existência, definido sobretudo na infância e reforçado pelas relações adultas. Trata-se de um conjunto de crenças, mandatos e permissões sobre si mesmo, os outros e o mundo, moldando as escolhas cotidianas e as reações emocionais (BERNE, 1972). Neste capítulo, abordamos a formação do script, suas principais características, a forma de analisá-lo e, principalmente, como realizar intervenções que possibilitem caminhos de maior autonomia.
O script (do termo em inglês "script") é análogo a um roteiro teatral inconsciente, esboçado por mensagens parentais, familiares e culturais que a criança absorve e interpreta, construindo uma história coerente, embora inconsciente, sobre o próprio destino (BERNE, 1964).
Esse texto interno – cujas linhas dificilmente são vistas a olho nu – determina papéis, missões e desenlaces prováveis que a pessoa considera "inevitáveis". São, portanto, decisões tomadas em uma fase de vida em que a lógica e a capacidade de relativização ainda estão em formação. Na vida adulta, esses roteiros podem se manifestar como escolhas repetitivas, padrões de relacionamento e até sintomas psicossomáticos.
Mandatos como "Não seja você mesmo", "Não cresça", "Não sinta" ou "Não seja criança" são transmitidos direta ou indiretamente pelos cuidadores. Essas mensagens podem ganhar força e moldar o "enredo" que a criança passa a seguir (GOULDING; GOULDING, 1979).
As expectativas de gênero, religião e classe social podem reforçar certas crenças sobre o que a criança "pode" ou "deve" fazer. Por exemplo, em famílias altamente competitivas, um script de "ter de provar valor o tempo todo" tende a ganhar solidez.
Traumas, perdas ou episódios de grande impacto emocional são incorporados ao script, em geral alimentando papéis de vítima, salvador ou perseguidor, conforme a criança percebe e interpreta o que ocorreu.
Uma mensagem básica, do tipo "Eu não mereço ser feliz" ou "Tenho de ser forte para ninguém me abandonar". Esse tema se repete nos relacionamentos e atividades cotidianas.
No “palco” interno, a pessoa pode ter um lugar preferencial de vítima, salvador, perseguidor ou de algum outro papel derivado dos Estados do Ego Pai ou Criança habituais (BERNE, 1972). Alternar papéis também faz parte de alguns scripts mais complexos.
Muitos scripts têm um desfecho previsto, real ou simbólico. Alguns buscam o "sucesso" de forma compulsiva, outros acabam em fracassos repetitivos, perpetuando a crença de incapacidade. Em certos casos, roteiros dramáticos envolvem adoecimento crônico ou isolamento afetivo.
O terapeuta ou facilitador ajuda o paciente a reconhecer frases ou atitudes parentais que marcaram sua infância e possíveis "proibições", como "Não fale de sentimentos" ou "Não se destaque demais". Identifica também permissões positivas (ex.: "Você pode experimentar", "Você pode sentir orgulho de si"), que podem ter sido sufocadas.
Frequentemente, na idade de 2 a 7 anos (ou em outras etapas infantis), a criança toma decisões sobre si e a vida. A análise do script pede a reconstrução dessas cenas-chaves, evidenciando como determinada escolha inconsciente passou a reger comportamentos na vida adulta.
Ao expor esses conteúdos à luz do Estado do Ego Adulto, a pessoa pode atualizar (redecidir) as narrativas antigas, substituindo crenças obsoletas por visões mais realistas e libertadoras (GOULDING; GOULDING, 1979). Esse processo também recebe o nome de "descontaminação" ou "reinvenção do script".
Alguns teóricos da AT distinguem scripts vencedores, não-vencedores e perdedores (BERNE, 1964).
A análise permite ao paciente enxergar as regras secretas que cumpre. Relembrar cenas da infância, associar reações emocionais presentes e tomar consciência das decisões passadas ajuda a reavaliar: "É mesmo verdade que eu não posso errar?" ou "Realmente eu não sou digno de amor?". O Adulto atualiza os dados e verifica a possibilidade de re-decidir (BERNE, 1972).
Em grupos de Análise Transacional, cada participante observa como seus comportamentos refletem roteiros antigos. Os feedbacks do grupo servem como espelho, possibilitando a identificação de "clichês" pessoais e a experimentação de novos papéis, sem cumprir velhos mandatos.
Nas escolas e empresas, entender que cada indivíduo traz um script pode ajudar educadores e líderes a evitar julgamentos simplistas. Por exemplo, um colaborador que sabota chances de promoção pode estar seguindo um script de "não mereço vencer". Ao reconhecer e respeitar esse cenário, a liderança pode oferecer suporte para romper condicionamentos limitantes.
A Análise do Script, um dos pilares da Análise Transacional, fornece ferramentas para compreender a origem dos padrões de comportamento que aprisionam indivíduos em círculos repetitivos de sucesso ou fracasso, de intimidade ou isolamento. Com a aplicação de técnicas focadas em re-decisões e conscientização, possibilita-se assumir o comando da própria história, rompendo com mandatos punitivos e abrindo caminho para construir narrativas mais flexíveis e saudáveis.
Dessa forma, a jornada de autodescoberta ganha densidade e real significado. Em vez de seguir o destino "escrito" na infância, o sujeito passa a escrever novos capítulos, baseados em avaliações racionais, emoções legitimadas e relacionamentos livres de scripts paralisantes.