Carícias são um dos princípios fundamentais da Análise Transacional e exercem influência direta sobre o bem-estar psicológico dos indivíduos. Eric Berne, ao propor o conceito de transação como unidade de comunicação, notou que o ser humano busca algo além de uma simples resposta verbal. Ele procura reconhecimento, confirmação de sua existência e de seu valor. Nesse contexto, surgem as carícias.
Na linguagem da Análise Transacional, “carícia” significa qualquer forma de reconhecimento que uma pessoa dá a outra. Esse reconhecimento pode ser expresso por meio de sinais verbais, gestos, expressões faciais ou toques físicos. Berne pontuou que receber e dar carícias é uma necessidade básica. Cada indivíduo carrega uma espécie de “fome de estímulo” ou “fome de reconhecimento” que o leva a buscar interações, mesmo que, em alguns casos, isso ocorra de maneiras problemáticas.
Claude Steiner, um dos principais expoentes pós-Berne, aprofundou o conceito de carícias, destacando que o ser humano prefere receber carícias negativas a não receber carícia alguma, pois a falta total de reconhecimento seria interpretada como uma ameaça ao próprio senso de existência. Assim, as carícias podem ser classificadas de diversas maneiras e representam um eixo fundamental na dinâmica das relações humanas.
Carícias positivas indicam aprovação, afeto ou valorização do outro. Elas podem se manifestar em elogios, abraços, sorrisos, palavras de encorajamento ou qualquer gesto que promova sentimentos de conforto e aceitação.
Exemplos:
Carícias negativas são aquelas que expressam reprovação, crítica ou descontentamento. Embora pareçam indesejáveis, podem paradoxalmente ter valor para quem as recebe, pois, mesmo sendo um reconhecimento adverso, ainda assim suprem a fome de estímulo. O problema é que elas frequentemente geram sentimentos de culpa, inferioridade ou insegurança.
Exemplos:
As carícias condicionais dependem de um comportamento específico. A pessoa recebe reconhecimento se atingir certo resultado ou corresponder a uma expectativa. Podem aparecer tanto no plano positivo quanto no negativo. No aspecto positivo, exige-se que alguém cumpra um padrão para receber elogios; no aspecto negativo, a censura surge se aquele padrão não foi cumprido.
Exemplos:
Já as carícias incondicionais não dependem de desempenho ou condição prévia. São oferecidas sem restrições, valorizando a pessoa por quem ela é. Elas podem ser positivas, como o amor incondicional de um pai por um filho, ou negativas, em casos em que há rejeição permanente, independentemente do comportamento apresentado.
Exemplos:
As carícias exercem um papel essencial na formação da autoestima, da autoconfiança e do senso de pertencimento. Em um ambiente familiar, crianças que recebem carícias positivas crescem com a convicção de que são valiosas e merecem o afeto das pessoas ao redor. Por outro lado, aquelas que recebem mais carícias negativas podem formar crenças de insuficiência e sentir que perpetuamente precisam buscar aprovação.
Em organizações e grupos sociais, a falta de carícias produz clima de desmotivação. As pessoas deixam de se sentir importantes. Por outro lado, a aplicação equilibrada de carícias positivas e feedbacks construtivos gera engajamento, criando um círculo virtuoso de pertencimento e produtividade.
A Análise Transacional propõe que todo contato humano consiste em transações entre Estados do Ego (Pai, Adulto e Criança). Quando alguém envia um estímulo – positivo ou negativo – e a outra pessoa devolve uma resposta, uma carícia é recebida ou entregue. Esse intercâmbio reforça a dinâmica relacional e alimenta a fome de reconhecimento de cada um.
No entanto, há armadilhas. Se um indivíduo se habitua a receber somente carícias negativas e passa a acreditar que é a única forma de interagir, poderá reproduzir esse comportamento com os outros. Isso pode gerar ciclos ruins de comunicação, cheios de acusações, cobranças e ressentimentos, bloqueando a possibilidade de trocas saudáveis.
Claude Steiner desenvolveu a metáfora do “banco de carícias” (strokes bank). Ele sugere que cada pessoa tem uma conta onde são depositadas carícias positivas ou negativas. Quando se acumulam muitas carícias positivas, o indivíduo sente-se estimulado, confiante e propenso a oferecer apoio aos demais. Já o acúmulo de carícias negativas leva à carência e a uma visão de mundo repleta de insegurança, podendo levar à hostilidade ou ao retraimento. Essa ideia incentiva as pessoas a valorizar ativamente as carícias recebidas e a reconhecer a carência alheia, pois cada um busca depósitos de afeto e de aprovação em seu “banco” pessoal.
Ainda que as carícias negativas sejam reconhecimentos, há casos em que elas se tornam francamente destrutivas. Algumas palavras podem carregar julgamentos pesados, ironias ou humilhações veladas, desencadeando comportamentos disfuncionais. Quando a carícia negativa ultrapassa limites mínimos de respeito, ela pode ser considerada abusiva. Em tais situações, a consciência sobre a própria necessidade de reconhecimento e a habilidade de pôr limites tornam-se estratégias fundamentais para proteger a saúde mental.
Em ambientes profissionais, muitas pessoas subestimam a importância das carícias. Confunde-se profissionalismo com aridez de afeto. Porém, demonstrar reconhecimento por meio de um elogio genuíno ou de um incentivo pode fazer a diferença entre uma equipe desmotivada e outra que se sente engajada. As carícias positivas ajudam a construir ambientes mais saudáveis e atentos, nos quais cada integrante sabe que seu esforço é percebido. No âmbito das relações pessoais, a troca de carícias estabelece vínculos de confiança, favorecendo a honestidade e a intimidade.
A Análise Transacional indica que podemos rever crenças arraigadas e fazer escolhas livres. Ao perceber a busca por carícias – positivas ou negativas –, adquire-se maior autonomia, possibilitando substituir dinâmicas repetitivas por interações genuínas.
A fome de reconhecimento, abastecida pelas carícias, é um dos motores das relações humanas. Saber identificar e gerir as próprias carências de reconhecimento permite maior liberdade para agir com responsabilidade e empatia.